Anarquista

  • about
  • ask
  • archive
  • rss


  • Next »

    Perdoa-me visão dos meus amores,
    Se a ti ergui meus olhos suspirando!… 
    Se eu pensava num beijo desmaiando 
    Gozar contigo a estação das flores! 

    De minhas faces os mortais palores, 
    Minha febre noturna delirando, 
    Meus ais, meus tristes ais vão revelando 
    Que peno e morro de amorosas dores… 

    Morro, morro por ti! na minha aurora 
    A dor do coração, a dor mais forte, 
    A dor de um desengano me devora… 

    Sem que última esperança me conforte, 
    Eu - que outrora vivia! - eu sinto agora 
    Morte no coração, nos olhos morte!

    Álvares de Azevedo

    Os quinze anos de uma alma transparente, 
    O cabelo castanho, a face pura,
    Uns olhos onde pinta-se a candura
    De um coração que dorme, inda inocente…

    Um seio que estremece de repente
    Do mimoso vestido na brancura…
    A linda mão na mágica cintura…
    E uma voz que inebria docemente…

    Um sorrir tão angélico, tão santo…
    E nos olhos azuis cheios de vida
    Lânguido véu de involuntário pranto…

    É esse o talismã, é essa a Armida,
    O condão de meus últimos encantos,
    A visão de minh’alma distraída!

    Álvares de Azevedo


    OBS: Aconteceu isso naquele dia.

    O Pior dos Males

    Baixando à Terra, o cofre em que guardados
    Vinham os Males, indiscreta abria
    Pandora. E eis deles desencadeados
    À luz, o negro bando aparecia.

    O Ódio, a Inveja, a Vingança, a Hipocrisia,
    Todos os Vícios, todos os Pecados
    Dali voaram. E desde aquele dia
    Os homens se fizeram desgraçados.

    Mas a Esperança, do maldito cofre
    Deixara-se ficar presa no fundo,
    Que é última a ficar na angústia humana…

    Por que não voou também? Para quem sofre
    Ela é o pior dos males que há no mundo,
    Pois dentre os males é o que mais engana.

    Alberto de Oliveira

    A menina e o sapo

    Nina, menina airosa, formosa como ela só. 
    Bonito era ver Nina correr. 
    Ora corria rápido, feito tufão, ora devagar, parecendo brisa. 

    Nina corria pelo jardim. 
    Nina caía no gramado. 
    Nina fazia folia. E ria. 

    À noite, cansada das travessuras do dia, a menina dormia. 

    Certa vez, enquanto passeava pelo jardim, Nina viu um sapo. 
    Sapo também viu Nina. 
    “Será que, se Nina beijar o sapo, sapo vira príncipe?” 
    Nina não sabia, mas ficava imaginando como isso seria. 

    Nina beijou o sapo. 
    Sapo continuou sapo. 
    Não virou príncipe. 
    Mas se apaixonou por Nina. 

    Agora, onde Nina está, lá se vê o sapo apaixonado suspirando pela menina. 

    Na cabeça do sapo, Nina é uma princesa-sapa, transformada em menina por uma terrível feiticeira.

    Autora: Marcia Paganini Cavéquia